Povos indígenas e negros nos Sertões do Leste: transição para a República e nacionalidade

Palavras-chave: fronteira, nacionalidade, Botocudos, quilombolas, cidadania.

Resumo

Estudos sobre os povos chamados Botocudos, nas Minas Oitocentistas, são aqui aproximados aos aportes recentes sobre a presença de quilombos na região denominada Sertões do Leste, marcada por uma colonização violenta, com a ocorrência de escravização de indígenas e fugas de escravos negros. Para isso, são levantadas, nas fontes pesquisadas, informações relativas às complexas relações entre índios e negros escravizados que apontam para a formação de redes e conexões nas regiões de fronteira. A proposta se insere em uma tendência de estudos latinoamericanistas de articular a experiência indígena oitocentista à dos descendentes africanos, frequentemente abordados separadamente, nelas situando problemas relativos aos processos de cidadanização e transição para o trabalho livre na formação da nacionalidade.

 

Biografia do Autor

Izabel Missagia de Mattos, Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro

Izabel Missagia de Mattos, professora associada de Antropologia na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, na qual ensina em cursos de graduação e Pós-graduação nas áreas de História e Ciências Sociais, é autora de diversos artigos científicos e do livro Civilização e Revolta: os Botocudos e a catequese na Província de Minas (2004) -  trabalho premiado pela Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (ANPOCS, 2003) -,  fruto de pesquisa de doutorado realizada na Universidade Estadual de Campinas, sob orientação do professor John Monteiro (1956-2013).   Atualmente vem investigando, com o auxílio da Fundação de Apoio à Pesquisa do Rio de Janeiro, processos referentes à memória social, paisagem e patrimônio cultural  de povos indígenas em Minas Gerais. 

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Publicado
2019-04-15
Seção
Dossiê 1: História Indígena, Etno-história e Indígenas Historiadoras/es: experiências descolonizantes, novas abordagens