Da Dimensão Terapêutica da Atividade Xamânica

  • Laércio Fidelis Dias Universidade Estadual Paulista (Unesp), campus de Marília/SP.
Palavras-chave: antropologia da saúde, etnomedicina, índios sul-americanos, intermedicalidade, narrativas.

Resumo

O objeto de investigação são os tratamentos xamânicos presentes nas narrativas de Palikur, Galibi Maworno e Karipuna que habitam a Terra Indígena Uaçá. A problemática é responder à seguinte indagação: qual o escopo da terapêutica na atividade xamânica? A premissa é a de que tratar problemas de saúde implica reordenar e reequilibrar relações sociocosmológicas que envolvem domínios humanos e não humanos, seres humanos e sobrenaturais.  Nesse sentido, saúde e doença relacionam-se com questões mais amplas do que apenas manifestações biofísicas no corpo. O objetivo geral do artigo é analisar o papel do xamã sem reduzi-lo a mero curador. Do ponto de vista metodológico, o uso das narrativas se justifica por expressarem a lógica da experiência, trazendo consigo os princípios de construção, ordenação e significação dos eventos. A premissa foi confirmada, ou seja: a dimensão terapêutica da atividade xamânica não se restringe aos aspectos biofísicos da experiência da doença.

Biografia do Autor

Laércio Fidelis Dias, Universidade Estadual Paulista (Unesp), campus de Marília/SP.
Graduou-se em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo (USP). Obteve o grau de Mestre e Doutor em Antropologia Social também pela Universidade de São Paulo. Atualmente é Professor Doutor do Departamento de Sociologia e Antropologia e Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais, Vice-Coordenador do curso de Relações e Internacionais e Chefe do Departamento de Sociologia e Antropologia, na Universidade Estadual Paulista (UNESP), campus Marília. Desenvolve pesquisa na área de Antropologia, com ênfase em Antropologia da Saúde e Médica, e Etnobiologia atuando nos seguintes temas: etnomedicina, itinerário terapêutico, transição da saúde, bebidas alcoólicas.

Referências

ACKERKNECHT, E. Medicine and ethnology. Selected Essays, Baltimore: John Hopkins Press, 1971.

______. The role of medical history. Medical education. Bulletin of the History of Medicine, n. XXI, p. 1-17, 1947a.

______. Primitive surgery. American Anthropologist, n. 49, p. 25-45, 1947b.

______. Natural diseases and rational treatment in primitive medicine. Bulletin of the History of Medicine, n. 19, p. 467-97, 1946.

______. Problems of primitive medicine. Bulletin of the History of Medicine, n. 11, p. 503-21, 1942a.

______. Primitive medicine and culture pattern. Bulletin of History Of Medicine, n. 12, p. 545-74, 1942b.

ALBERT, B. O ouro canibal e a queda do céu: uma crítica xamânica da economia política da natureza. In: ALBERT, B.; RAMOS, A. (Org.). Pacificando o branco: cosmologias do contato no norte-amazônico. São Paulo: Unesp, 2000.

ALBERT, B. Temp du sang, temps dês cendres: répresentation de La maladie, système ritual et espace politique chez ls Yanomami du sud-est (Amazonie brésilienne). 1985. Tese (Doutorado) – Laboratório de Etnologia e Sociologia Comparada, Universidade de Paris X, Paris, 1985.

BARBOSA, G. Das trocas de bens. In: Gallois, D. T. (Org.). Sociedades indígenas e suas fronteiras na região sudeste das Guianas. São Paulo: Humanitas/FFLCH/USP, 1995.

Benedict, R. Os padrões de cultura. Lisboa: Editora Livros do Brasil, 1983.

BRUNELLI, G. Do xamanismo aos xamãs: estratégias Tupi-Mondé frente à sociedade envolvente. In: LANGDON, E. J. M. (Org.). Xamanismo no Brasil. Florianópolis: Editora da UFSC, 1996.

BUCHILLET, D. A antropologia da doença e os sistemas oficiais de saúde. In: BUCHILLET, D. (Org.). Medicinas tradicionais e medicina ocidental na Amazônia. Belém, PA: MPEG/CNPq/CEJUP/UEP, 1991. p. 21-44.

CARNEIRO DA CUNHA, M. Pontos de vista sobre a Floresta Amazônica: xamanismo e tradução. Mana, Rio de Janeiro, v. 4, n. 1, p. 7-22, abr. 1998.

CENTRO DE DOCUMENTAÇÃO E INFORMAÇÃO (CEDI). Povos indígenas no Brasil. 1983. v. 3. Disponível em: <https://books.googleusercontent.com/books/content?req=AKW5Qafbe454lVJbOJSDm-TRLxUWYUQr57hy50_pRowS1HCOd38luoq3KcYudnjIA6TNXEmYOUUgGS4PPDCJOZxzeGIQbIQeHpIQIiJWFSqm0UTEvvKYEgWSne0EdPL7foAy4W9YOZquYQWYLPNgFU44txgTRxitT0lApVAr9kBiShRPqK0SU9cEVXcS8pFNsIBt1B8jZqB4pQXuAoBTC6UFS3SKJhuEOCLxiHw1E3cVA4jxqS9CPxmXc91yXLL_q-BOnrkJ5sUD6_ANnfYYi_ujFlQVlsc-Tw>.

CLASTRES, P. A sociedade contra o Estado. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1990.

CLEMENTS, F. E. Primitive concepts of disease. American Archeology and Ethnology, Berkeley, California, v. 32, n. 2, p. 185-252, 1932.

COLSON, A. B. The Akawaio Shaman. Carib-Speaking Indians – Culture, Society and Language, Tucson, Arizona, n. 28, p. 43-65, 1977.

COPENS, W. Las relaciones comerciales de los Yekuana del Caura-Paragua. Antropologica, Caracas, n. 30, p. 28-59, 1971.

DIAS, L. F. Uma etnografia dos procedimentos terapêuticos e dos cuidados com a saúde das famílias Karipuna. 2001. Dissertação (Mestrado em Antropologia Social) - Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH), Universidade de São Paulo (USP), São Paulo, 2001a.

______. As práticas e os cuidados relativos à saúde entre os Karipuna do Uaçá. Cadernos de Campo, São Paulo, v. 9, n. 9, p. 59-72, 2001b.

DURKHEIM, E. As formas elementares da vida religiosa. São Paulo: Martins Fontes, 1996.

EVANS-PRITCHARD, E. E. Witchcraft, oracles and magic among the azande. London: Oxford University Press, 1937.

FRAZER, J. The golden bough: a study in magic and religion. London: Macmillan, 1980. Publicado originalmente em 1890.

FREEDMAN, M. Antropologia social e cultural. Lisboa: Livraria Bertrand, 1978. v. 2.

Gallois, D. T. Xamanismo Waiãpi: nos caminhos invisíveis, a relação i-paie. In: Langdon, E. J. M. (Org.). Xamanismo no Brasil. Florianópolis: Editora da UFSC, 1996. p. 39-74.

GALLOIS, D. T. O movimento na cosmologia Wajãpi: criação, expansão e transformação do universo. 1988. Tese (Doutorado em Antropologia Social) - Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FLCH), Universidade de São Paulo (USP), São Paulo, 1988.

Geertz, C. A interpretação das culturas. Rio de Janeiro: Guanabara, 1989.

Good, B. J. Medicine, rationality, and experience. Cambridge: Cambridge University Press, 1994.

GRENAND, P. Ainsi parlaient nos ancêtres: essai d´ethnohistoire waiãpi. Paris: Orstom, 1982.

HAHN, R.A. (Ed.). Anthropology in public health: bridging differences in culture and society. New York: Oxford University Press, 1999.

HELMAM, C. G. Introdução: a abrangência da antropologia médica. In: ______. Cultura, saúde e doença. Porto Alegre: Artes Médicas, 1994.

HILDEBRAND, M. V. Cosmovisión y el concepto de enfermedad entre los Ufaina. In: SANTOYO, M. J.; ANTORVEZA, A. T. (Org.). Medicina, shamanismo y botanica. Bogotá: FUNCOL, 1983. p. 48-63.

JARDILINO, J. R.; ROSSI, G.; SANTOS, G. T. Orientações metodológicas para elaboração de trabalhos acadêmicos. São Paulo: Gion, 2000.

KLEINMAN, A. M. D. Patients and healers in the context of culture. Berkeley: University of California Press, 1980.

Langdon, E. J. M. A doença como experiência: a construção da doença e seu desafio para a prática médica. In: Antropologia em primeira mão. Florianópolis: Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da UFSC, 1996a.

______. Introdução: xamanismo – velhas e novas perspectivas. In: LANGDON, E. J. M. (Org.). Xamanismo no Brasil. Florianópolis: Editora da UFSC, 1996b.

______. A negociação do oculto: xamanismo, família e medicina entre os Siona no contexto pluri-étnico. Trabalho apresentado para o Concurso de Professor Titular na Universidade Federal de Santa Catarina. Florianópolis, 1994.

______. El papel de la narrativa en el sistema shamanico de los Siona. In: PINZÓN, C. E.; SUAREZ, P. R.; GARAY, A. G. (Org.). Cultura y salud en la construccion de las Americas: reflexiones sobre el sujeto social. 1. ed. Bogotá: Instituto Colombiano de Antropologia, 1993. p. 71-88.

______. Introduction: shamanism and anthropology. In: LANGDON, E. J. M.; BAER, G. (Ed.). Portals of power. Albuquerque: University of New Mexico, 1992.

LOBO-GUERRERO, M.; HERRERA, X. Incorporacion del shaman indígena en los programas de salud: reflexiones sobre algunas experiências en Colombia. In: BUCHILLET, D. (Org.). Medicinas tradicionais e medicina ocidental na Amazônia. Belém, PA: MPEG/CNPq/CEJUP/UEP, 1991. p. 267-79.

______. Shamanismo: irracionalidad o coherencia? In: SANTOYO, M. J.; ANTORVEZA, A. T. (Org.). Medicina, shamanismo y botanica. Bogotá: FUNCOL, 1983. p. 37-47.

MALINOWSKI, B. Magic, science and religion and other essays. Garden City. New York: Doubleday Press, 1948.

MAUSS, M.; HUBERT, H. Esboço de uma teoria geral da magia. In: MAUSS, M. (Org.). Sociologia e Antropologia. Tradução de Paulo Neves. São Paulo: Cosac & Naify, 2003. p. 47-181. Publicado originalmente em 1902-3.

MCELROY, A.; TOWNSEND, P. K. Medical anthropology in ecological perspective. Colorado: Westview Press, 1996.

OVERING, J. The Piaroa: a people of the Orenoco basin. Oxford: Claredon, 1975.

PASSES, A. The hearer, the hunter, and the agouti head. 1988. Tese (Doutorado em Filosofia) - University of Saint Andrew, Edimburgo, 1998.

PATEO, R. do. Guerra e devoração. In: Gallois, D. T. (Org.). Sociedades indígenas e suas fronteiras na região sudeste das Guianas. São Paulo: Humanitas/FFLCH/USP, 2005.

PERRIN, M. The Body of the Guajiro Shaman. In: LANGDON, E. J. M.; BAER, G. (Ed.). Portals of power. Albuquerque: University of New Mexico, 1992.

PollaRk-Eltz, A. La medicina popular en Venezuela. n. 86. Caracas: Academia Nacional de la Historia, 1987.

RAMOS, A. R. Hierarquia e simbiose: relações intertribais no Brasil. São Paulo: Hucitec, 1980.

REICHEL-DOLMATOFF, G. Conceptos indigenas de enfermedad y de equilibrio ecologico: los Tukanos y los Kogi de Colombia. In: SANTOYO, Myriam Jimeno; ANTORVEZA, Adolfo Triana (Org.). Medicina, shamanismo y botanica. Bogotá: FUNCOL, 1983. p. 19-27.

RIVERS, W. H. R. Medicine, magic and religion. New York: AMS Press, 1979. Publicado originalmente em 1924.

Scheper-Hughes, N.; Lock, M. The mindful body: a prologomenon to future work in medical anthropology. Medical Anthropology Quarterly, v. 1, n. 1, p. 6-84, mar. 1987.

SZTUTMAN, R. Sobre a ação xamânica. In: Gallois, D. T. (Org.). Sociedades indígenas e suas fronteiras na região sudeste das Guianas. São Paulo: Humanitas/FFLCH/USP, 2005.

TASSINARI, A. M. I. No bom da festa: o processo de construção cultural das famílias Karipuna do Amapá. São Paulo: Edusp, 2003.

thomas, d. J. The indigeneous trade system of southeast estado Bolivar, Venezuela. Antropologia, Caracas, n. 33, p. 3-37, 1972.

Tylor, E. The primitive culture. London: Murray, 1871.

VAN VELTHEM, L. H. O belo é a fera: estética da produção e da predação entre os Wayana. 1995. Tese (Doutorado em Antropologia Social). Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FLCH), Universidade de São Paulo (USP), São Paulo, 1995.

VIDAL, l. b.; SILVEIRA, L. F.; LIMA, r. G. A pesquisa sobre avifauna da bacia do Uaçá: uma abordagem interdisciplinar. In: SILVA, A. L.; FERREIRA, M. K. L. (Org.). Práticas pedagógicas na escola indígena. São Paulo: FAPESP/ GLOBAL/MARI, 2001. (Série Antropologia e Educação).

VIVEIROS DE CASTRO, E. Araweté os deuses canibais. Rio de janeiro: Jorge Zahar Editor/Anpocs, 1986.

Publicado
2018-04-10