Missões jesuíticas dos Sete Povos e o Tratado de Madri (1750): protagonismo, resistência e autodeterminação dos índios na luta pela terra

Palavras-chave: resistência, autodeterminação, Guarani-missioneiros, colonialidade de gênero.

Resumo

Este estudo aborda o processo de resistência dos guarani das missões dos Sete Povos entre os anos de 1750 e 1756 contra o Tratado de Madri (1750), destacando como a resistência indígena se configura enquanto um processo de reconhecimento de direitos e de diferenças sociais, econômicas e culturais em relação ao modelo colonial. Desse modo, a resistência dos guarani-missioneiros ganha contornos de autodeterminação de sujeitos subalternizados no aporte teórico decolonial. Nesse sentido, este artigo aborda, brevemente, o processo de transformação cultural e constituição da identidade étnica guarani-missioneiro, e como a luta contra as prerrogativas do Tratado de Madri foi uma busca por manutenção da unidade étnica constituída no cosmos missioneiro. A partir disso, aborda-se a consciência dos guarani-missioneiros de sua importância nos meandros geopolíticos dos séculos XVII e XVIII na região platina e, de igual modo, problematiza-se a situação de negociações entre os indígenas e outros atores que compunham o cenário geopolítico da região, afinal, quando obrigados a saírem de suas terras, os guarani-missioneiros resistiram, advertindo a elite colonial dos seus feitos em prol da Espanha. O objetivo central é, pois, apresentar o protagonismo indígena no processo de luta pela terra e por seus direitos, através de uma perspectiva epistemológica que transcenda as velhas análises eurocêntricas e etnocêntricas sobre o passado missioneiro: em termos historiográficos, utilizaremos estudos comprometidos com um olhar crítico das fontes, tais como Meliá (1978), Kern (1982), Neumann (2015) e Langer (2005).

 

Biografia do Autor

Mateus Brunetto Cari, Universidade Federal da Grande Dourados
Bacharel em Relações Internacionais pela UFGD. Mestrando do Programa de Pós-Graduação em História da UFGD.
Paula Faustino Sampaio, Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT) Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD)
Profª da Universidade Federal de Mato Grosso - Campus Rondonópolis. Estudante do Programa de Pós-Graduação em História (Doutorado) Universidade Federal da Grande Dourados. Rondonópolis, MT, Brasil. Mestre em História pela Universidade Federal de Pernambuco.

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Publicado
2019-04-15
Seção
Dossiê 1: História Indígena, Etno-história e Indígenas Historiadoras/es: experiências descolonizantes, novas abordagens