Movimentos indígenas latino-americanos da segunda metade do século XX: reflexões comparativas sobre processos decoloniais no Brasil e na Colômbia

Palavras-chave: movimentos indígenas contemporâneos, território, América Latina.

Resumo

No contexto de crise política e econômica que se materializou em vários países da América Latina na segunda metade do século XX, os povos indígenas articularam estratégias particulares na luta por direitos sociais frente aos Estados Nacionalistas, a partir de um processo histórico de mobilizações e demandas étnicas de âmbito nacional e internacional. Os eixos centrais dessas articulações políticas estiveram (e ainda hoje estão) diretamente relacionados ao reconhecimento de suas diferenças frente aos processos de assimilação e integração empreendidos por esses Estados ao longo das relações de contato. Nas últimas décadas, tais processos se tornaram mais evidentes, passando a ser questionados por sujeitos e coletivos indígenas em um processo que denominamos de emergências políticas e sociais de sujeitos e coletivos indígenas na América Latina, os quais, informam os processos decoloniais. Nesse sentido, propomos uma análise histórica e política que se debruça sobre os movimentos indígenas ocorridos no Brasil e na Colômbia de modo a identificar, conhecer e debater sobre algumas de suas características singulares e correlacionais. A ênfase nos processos sócio-políticos que possibilitaram o reconhecimento constitucional da diversidade e da diferença de povos nesses dois países se torna elemento importante, no âmbito das reformas econômicas e neoliberais, para refletirmos sobre a ampliação da participação política de grupos sociais considerados incapazes de protagonizar a luta pela reivindicação das demandas mais elementares de seus modos de vida. Nesse sentido, o objetivo do texto é apresentar elementos históricos que permitam a reflexão sobre fenômenos de emergências políticas e sociais de povos indígenas, desencadeadas no Brasil e na Colômbia a partir da segunda metade do século XX.

Biografia do Autor

Fernando Roque Fernandes, Universidade Federal do Amazonas - UFAM Professor Assistente Universidade Federal do Pará - UFPA Estudante de Pós-Graduação (Doutorado)
Atualmente, é Professor Assistente do Departamento de Educação Escolar Indígena (DEEI) da Faculdade de Educação (FACED) da Universidade Federal do Amazonas (UFAM) onde atua no Curso de Formação de Professores Indígenas (FPI). É doutorando em História Social da Amazônia pelo Programa de Pós-Graduação em História (PPHIST) da Universidade Federal do Pará (UFPA). Pesquisador do Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre Formação de Professores e Relações Étnico-Raciais (GERA/UFPA). Desenvolve pesquisas relacionadas aos Movimentos Indígenas no Brasil, Educação Escolar Indígena na Amazônia Brasileira e Povos Indígenas e Ensino Superior no Amazonas.
Mauricio Alejandro Diaz Uribe, Universidade Federal do Espírito Santo - UFES
Doutorando no Programa de Pós Graduação em História Social das Relações Políticas da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Possui Mestrado em Estudios Latinoamericanos pela Universidad Nacional de General San Martín (2011). Possui Graduação em Antropologia pela Universidad Nacional de Colombia - Bogotá (2006). Tem experiência na área de Antropologia, com ênfase em politicas sociais.

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Publicado
2019-09-03
Seção
Dossiê 2: História Indígena, Etno-história e Indígenas Historiadoras/es: experiências descolonizantes, novas abordagens