Retomada Aty Jovem: insurreições nas margens do porvir

Palavras-chave: juventude, necropolítica, guerra, retomada

Resumo

 O objetivo deste artigo é apresentar fragmentos de uma etnografia realizada de 2017 a 2020, em diferentes retomadas Guarani e Kaiowá no Mato Grosso do Sul, com especial ênfase no papel dos/as jovens guerreiros/as em uma realidade marcada pela violência estatal e empresarial, agenciada pelos mecanismos necropolíticos associados às máquinas de guerra do agronegócio. Diante da permanência da colonialidade e do colonialismo interno, tentaremos compreender a formação da assembleia da Retomada Aty Jovem (RAV) enquanto importante instância de mobilização e recuperação da agência política da juventude Guarani e Kaiowá frente às pressões da sociedade nacional, espelhada no terrorismo de Estado e na superexploração do trabalho como ferramentas afins do karai reko capitalista – modo de vida não-indígena – que intentam neutralizar insurgências e integrar novas áreas ao Estado e ao capital em novo processo de expansão. O enfoque desta proposta será ancorado de forma central nos discursos e narrativas destes jovens em permanente resistência, que se revelam como novo segmento de auto-organização e auto-objetivação.

Biografia do Autor

Felipe Mattos Johnson , Universidade de Lisboa (ULisboa)

Doutorando em Antropologia no Instituto de Ciências Sociais (ICS) da Universidade de Lisboa (ULisboa). Mestre em Antropologia pela Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD). Graduado em Ciências Sociais pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (UNESP).

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Publicado
2021-08-16
Seção
Dossiê: Povos Indígenas, Populações Tradicionais e os Estudos Críticos do Desenv