Os conhecimentos tradicionais Paĩ Tavyterã, Kaiowá e Guarani sobre o ka’a he’ẽ (Stevia rebaudiana)

Palavras-chave: Kaiowá, Guarani, Paĩ Tavyterã, Estévia, Stevia rebaudiana, conhecimentos tradicionais, jekoaku, kunumi pepy

Resumo

Este artigo descreve os conhecimentos tradicionais relacionados ao uso e manejo da Stevia rebaudiana pelos Paĩ Tavyterã, habitantes do departamento de Amambay, no leste do Paraguai, e dos Kaiowa e Guarani, do sul do estado brasileiro do Mato Grosso do Sul. Esses indígenas, conhecem essa planta pela denominação ka’a he’ẽ, em guarani. Por meio da realização de duas pesquisas interculturais, realizadas no Brasil e Paraguai, são descritos os usos relatados por anciões e anciãs com o ka’a he’ẽ, incluindo conhecimentos ecológicos e o manejo da planta. O ka’a he’ẽ, além de ser utilizado como um remédio para a cura de vários males, e como um edulcorante de alimentos, era consumido por jovens, mulheres e homens, na fase de transição para a idade adulta, momento no qual seus corpos se tornavam especialmente vulneráveis a influências externas. Nesse contexto, o consumo de folhas de ka’a he’ẽ, e a aplicação de infusão das folhas em partes do corpo, contribuía com a capacidade de produzir ou extrair alimentos doces, tal como o kaguĩ (chicha) doce, pelas mulheres. Além de produzir a capacidade de tornar algo doce, o ka’a he’ẽ atuava de forma protetiva, moderando e controlando os poderes de alteração dos corpos dos jovens durante a fase de jekoaku na transição para a fase adulta, espantando seres cujas afecções ao corpo não são desejadas. A planta era usada em especial no ritual do kunumi pepy, logo antes da furação dos lábios inferiores dos meninos para a inserção do tembetá.

Biografia do Autor

Felipe Vianna M. Almeida , Fundação Nacional do Índio (Funai).

Doutor em Antropologia Social pela Universidade de Brasília (UnB). Mestre em Desenvolvimento Rural pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Graduado em Ciências Biológicas pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). É servidor público da Fundação Nacional do Índio (Funai), ocupando o cargo de indigenista especializado.

Marcos Glauser Ortiz, Programa Nacional de Incentivo a los Investigadores, Consejo Nacional de Ciencia y Tecnología (PRONII- CONACYT)

Doutor em Antropologia pela Universidade de Marburgo, da Alemanha. Mestre em Agroecología pela Universidade Internacional de Andaluzia, da Espanha. Atualmente é docente e investigador nível I no Consejo Nacional de Ciencia y Tecnología (CONACYT), do Paraguay.

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Publicado
2021-08-16
Seção
Dossiê: Povos Indígenas, Populações Tradicionais e os Estudos Críticos do Desenv