Os peixes e o bem viver: reflexões na terra indígena Panambizinho do povo Kaiowá

Palavras-chave: Conhecimento Tradicional, Conservação da Biodiversidade, Etnoictiologia, Kaiowá.

Resumo

Este trabalho teve como finalidade um diálogo com a intenção de compartilhamento de saberes com a comunidade Kaiowá, da Terra Indígena de Panambizinho, Mato Grosso do Sul, no intuito de investigar a relação desse povo com os seres aquáticos denominados peixes, além de olhar para os acontecimentos históricos da piscicultura na comunidade, à fim de coletivamente trabalhar a importância das economias e a soberania alimentar deste grupo indígena. Como metodologia utilizamos a pesquisa qualitativa através da observação participante, turnê guiada e entrevistas não-estruturadas. Todas/os interlocutoras/es relataram a dificuldade de se pescar nos córregos e rios da região devido à diminuição do território tradicional. Os peixes mais apontados como benéficos para o consumo foram: piau, jundiá e dourado. Para crianças o consumo de traíra dourado, pacu e piranha não é indicado. Para as mulheres gestantes é indicado o consumo do muçum, por facilitar o parto. De acordo com os mestres tradicionais, a piscicultura não é uma prática tradicional Kaiowá, no entanto pode ser discutida visando a soberania alimentar da comunidade. Este estudo, pretende contribuir com informações acerca dos conhecimentos tradicionais do povo Kaiowá que poderão ser aproveitados na construção da melhoria das relações dos seres humanos com os peixes, com a mãe terra, com os demais seres vivos e com as economias referentes ao bem viver.

 

Biografia do Autor

Wilson Moreira Silva, Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD)

Licenciado em Educação do Campo pela Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD). Agricultor.

Anastácio Peralta, Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD)

Mestrando pelo programa de pós-graduação em Educação e Territorialidade pela Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD). Graduado em Licenciatura Intercultural Indígena Teko Arandu pela UFGD.

Maria Leda Vieira de Souza, Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD)
Graduada em Pedagogia pelas Faculdades Integradas de Fátima do Sul (FIFASUL). Pedagoga. Missionária do Conselho Indigenista Missionário (CIMI). Militante da causa indígena e sem-terra.

 

Laura Jane Gisloti, Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD)

Doutora e mestre em Biologia Animal pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Graduada em Ciências Biológicas pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-CAMPINAS). Atualmente, é bióloga.  Professora da Faculdade Intercultural Indígena da Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD); do programa de pós-graduação em Educação e Territorialidade pela Faculdade de Indiara (FAIND); e do programa de pós-graduação em Entomologia e Conservação da Biodiversidade pela Faculdade de Ciências Biológicas e Ambientais (FCBA).

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Publicado
2021-12-22