Uma organização que atravessa dois mundos: aprofundamentos sobre o hibridismo da Educação Escolar Avá-Guarani

Palavras-chave: Educação Escolar Indígena, escola indígena, Avá-Guarani, organização híbrida, burocracia

Resumo

Dentre as diversas organizações formais/burocráticas presentes nas sociedades modernas, há uma de extrema importância: a escola. No Brasil, com a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional de 1996, a educação escolar indígena é assumida como modalidade educativa, sendo a escola indígena formalmente reconhecida. A escola indígena é compreendida nesse trabalho pelo seu hibridismo que carrega o traço étnico de cada população nela implicada. Nesse sentido, acredita-se que encará-la apenas nos aspectos burocráticos que a constitui não seja adequado. Por isso, ela poderia ser entendida como uma multiplicidade de processos entre estabilidade-instabilidade e desconstrução-construção. Este artigo tem como objetivo refletir sobre o hibridismo da educação escolar Avá-Guarani, propondo entender rupturas e aproximações com o conceito de burocracia. A pesquisa é de natureza qualitativa/interpretativista e o campo são as escolas Avá-Guarani do oeste do Paraná. Como principal resultado, afirma-se que a escola Avá-Guarani pode ser compreendida como local de aprendizagem, instrumento político pela luta da demarcação dos territórios indígenas, espaço afetivo e local de afirmação/ressignificação de conhecimentos. A escola como um espaço híbrido deve ser entendida para além da dicotomia conhecimento tradicional e não indígena.

Biografia do Autor

Luis Fernando Moreira da Silva, Universidade Estadual de Maringá (UEM)

Mestre e Graduado em Administração pela Universidade Estadual de Maringá (UEM). Atualmente é professor de Gestão Mercadológica da Faculdade Eficaz. Atuando principalmente nos seguintes temas: Educação Escolar Indígena, Avá-Guarani, Interculturalidade, Organização Hibrida, Gestão Específica.

Márcio Pascoal Cassandre, Universidade Estadual de Maringá (UEM)

Pós-doutor em Learning, Innovation and Sustainability in Organisations pela Aarhus University, Copenhagen. Doutor em Administração pela Universidade Positivo, com período sanduíche pela University of Helsinki. Mestre em Administração pela Universidade Estadual de Maringá (UEM). Especialista em Marketing pelo Instituto de Ciências Sociais do Paraná (ICSP); e em Responsabilidade Social e Organizações do Terceiro Setor pela Universidade Estadual do Paraná (UNESPAR). Graduado em Administração pela UNESPAR. Professor adjunto no departamento de Administração da UEM, ministrando disciplina na área de Gestão de Pessoas, e no programa de pós-graduação em Administração. Líder do tema Conhecimento e Aprendizagem da divisão acadêmica Gestão de Pessoas e Relações de Trabalho (GPR) na Associação Nacional de Pós-graduação e Pesquisa em Administração (ANPAD). Avaliador do Ministério da Educação, Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (MEC-INEP).

Wagner Roberto do Amaral, Universidade Estadual de Londrina (UEL)

Doutor em Educação pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). Mestre em Educação pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (UNESP). Graduado em Serviço Social pela Universidade Estadual de Londrina (UEL). Atualmente, é professor associado do departamento de Serviço Social e docente pesquisador do programa de pós-graduação em Serviço Social e Política Social da UEL. Atualmente, é membro da Comissão Universidade para os Índios (CUIA) da UEL e do Paraná. Docente no Programa Iniciativa para Erradicação do Racismo na Educação Superior, coordenada pela Universidad Nacional Três de Febrero (UNTREF).

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Publicado
2021-12-22