Desenvolvimento e povos indígenas: para uma crítica ao desenvolvimento sustentável

Palavras-chave: povos indígenas, sustentabilidade, desenvolvimento, autonomia

Resumo

O conceito de desenvolvimento sustentável consolidou-se em 1987, com o relatório Brundtland, e apesar dos vários desdobramentos teóricos trazidos até hoje, essa noção permanece não levando em conta o aporte empírico e científico dos povos indígenas. Ao produzirem os bens e serviços de que necessitam, vivendo suas próprias economias, os povos indígenas, e seus variados modos e meios de produção, são os que mais se aproximam do conceito de desenvolvimento sustentável. A sustentabilidade pressupõe a capacidade de não produzir danos ecológicos superiores à possibilidade de renovação dos recursos naturais. Coloca-se em xeque, no entanto, a noção de desenvolvimento nos moldes ocidentais, em relação às economias indígenas, as quais contemplam paradigmas endógenos, vinculados à cosmogonia e práticas culturais, entre outros elementos de distinção. Tais parâmetros são de difícil compreensão fora das sociedades indígenas, embora aproximem-se conceitualmente daquilo que se convencionou chamar de desenvolvimento sustentável. Incorporar a maneira de pensar dos povos indígenas pode trazer um ganho para as sociedades não indígenas, como o artigo se propõe a refletir. O presente texto é fruto da experiência e atuação profissional dos autores, assim como foi elaborado a partir de pesquisa bibliográfica e documental, com o objetivo de apresentar reflexão teórico-crítica acerca do tema do desenvolvimento.

Biografia do Autor

Adriana de Oliveira Rocha , Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS)

Mestre em Direito pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS). Graduação em Direito pelas Faculdades Unidas Católicas de Mato Grosso (FUCMAT). Área de concentração em Direitos Humanos na UFMS.

Antônio Hilário Aguilera Urquiza, Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS)

Doutor em Antropologia pela Universidade de Salamanca (USAL), Espanha. Mestre em Educação pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). Graduação em Educação pela Universidade de Cuiabá (UNIC). Professor associado na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS); de pós-graduação em Antropologia Social e em Direito na UFMS. Líder do grupo de pesquisa Antropologia, Direitos Humanos e Povos Tradicionais. Bolsista PQ2.

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Publicado
2021-08-16
Seção
Dossiê: Povos Indígenas, Populações Tradicionais e os Estudos Críticos do Desenv