Realidade linguística de estudantes indígenas em uma universidade Amazônica

Palavras-chave: sociolinguística, bilinguismo, valor funcional, indígenas no ensino superior

Resumo

Pretende-se apresentar, neste artigo, os resultados de um levantamento sobre a realidade linguística dos indígenas da Universidade Federal do Oeste do Pará. Trata-se do resultado de uma pesquisa sobre o repertório linguístico dos estudantes, a sua situação de mono-, de bi- e/ou de plurilinguismo e sobre os usos das línguas faladas. O estudo foi realizado a partir das reflexões teóricas da Sociolinguística, na linha da Sociologia da linguagem (cf. DE HEREDIA, 1989; FISHMAN, 1964). Além dos aspectos sociolinguísticos, buscamos compreender se problemas de comunicação em Língua Portuguesa podem ser considerados como principal fator para um desempenho não satisfatório nos cursos de graduação dos referidos estudantes, conforme sugere discurso usual na instituição. Os dados analisados foram obtidos a partir da realização de entrevistas junto aos estudantes indígenas, ancoradas em questionário semiestruturado e, também, em observações da interação comunicativa dos alunos no espaço universitário. Os resultados mostram que, de 74 participantes, apenas 27 apresentam bi- e/ou plurilinguismo ativo nas línguas indígenas e no português, os demais, em sua quase totalidade, são monolíngues em português. Desse modo, embora se atribua à ausência de domínio do português a razão de os indígenas ficarem retidos nas disciplinas ou não concluírem seus cursos, esse não parece ser o principal problema.

Biografia do Autor

Denize de Souza Carneiro, Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA)

Mestra em Estudos Linguísticos pela Universidade Federal de Uberlândia; graduada em Letras/Português pela Universidade Federal do Amazonas. Docente na Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa), lotada no Programa de Letras do Instituto de Ciências da Educação. Área de pesquisa: Línguas Indígenas (descrição); sociolinguística qualitativa, ensino de línguas Indígenas e formação de professores indígenas.

Paula de Mattos Colares, Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA)

Doutora e mestra em Antropologia Social pelo PPGAS/ Museu Nacional – UFRJ; graduada em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Docente na Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa), lotada no Programa de Educação do Instituto de Ciências da Educação. Área de pesquisa: Etnologia indígena, Educação Indígena e Educação Escolar Indígena. 

Crislaine Castro de Sousa, Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA)

Graduanda do Curso de Ciências da Computação na Universidade Federal do Oeste do Pará. Líder indígena do povo Tapuia.

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Publicado
2021-12-22