Localização, orientação e representação espacial como expressão de territorialidades indígenas

Palavras-chave: Território, Licenciatura Intercultural, Indígenas Xakriabá.

Resumo

O artigo analisa tensões entre práticas de localização, orientação e representação espacial próprias dos Indígenas Xakriabá e aquelas que se configuram quando estudantes desse povo participam de uma disciplina, ministrada na universidade e no território indígena, em uma licenciatura intercultural. Iluminadas pelo pensamento decolonial e fundamentadas em formulações indígena e não indígena, território é entendido como um espaço de poder, luta, resistência e uso, uma herança que passa de geração para geração, um dos sentidos da interculturalidade na vida contemporânea Xakriabá. Embasada nessa formulação, a análise da participação e dos registros dos estudantes - mapas, desenhos, textos - e relatos orais mostram que tensões surgem nas práticas, tanto na universidade quanto no território indígena porque os estudantes constroem representações espaciais em estreita relação com a dinâmica de uso do seu território que, muitas vezes, não podem ser representadas pelos elementos técnicos de projeção do espaço no plano ou mesmo pelas referências geográficas. Conclui-se que as práticas de formação vivenciadas pelos estudantes contribuíram para a construção de novas territorialidades e que o estudo dessas noções pode compor um currículo como ferramenta político-pedagógica de fortalecimento das relações etnoterritoriais de professores indígenas. 

Biografia do Autor

Ozirlei Teresa Marcilino, Universidade Federal do Espírito Santo

Pós Doutorado em Conhecimento e Inclusão Social em Educação (2019) pela Universidade Federal de Minas Gerais. Doutora em Educação (2014) e Mestre em Educação (2005) pela Universidade Federal do Espírito Santo. Especialista em Administração e Supervisão Escolar e Matemática. Graduada em Pedagogia pela Escola Superior São Francisco de Assis (2004), em Licenciatura Plena no Curso de Ciências: habilitação em Matemática pela Faculdade de Filosofia Ciências e Letras Madre Gertrudes de São José (1999) e em Administração pela Faculdade de Ciências Econômicas de Colatina (1994). Pesquisadora com interesse em Educação Matemática Indígena, Educação Étnico Racial, Educação do Campo, Culturas e Povos Tradicionais. Professora do Departamento de Teorias do Ensino e Práticas Educacionais do Centro de Educação da Universidade Federal do Espírito Santo.

Vanessa Sena Tomaz, Universidade Federal de Minas Gerais

Licenciada em Matemática pela Universidade Federal de Minas Gerais (1986), mestre em Educação (2002) e doutora em Educação pela Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais (2007). Pós-doutora pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos - UNISINOS-RS, incluindo estágio de pesquisa no Center for Research on Activity, Development and Learning (CRADLE) - University of Helsinki. Atualmente é professora associada do Departamento de Métodos e Técnicas da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais. Membro do colegiado da Licenciatura Intercultural para Educadores Indígenas onde é coordenadora da turma de habilitação em Matemática. Coordena o grupo de pesquisa em Teoria da Atividade Histórico-cultural na pesquisa em Educação (CHATER), situado na Faculdade de Educação da UFMG. Atua na área de Educação, com ênfase em Educação Matemática. Desenvolve pesquisas sobre aprendizagem matemática dentro da perspectiva da teoria da atividade histórico-cultural com foco: nas práticas matemática em sala de aula, aprendizagem expansiva, educação escolar indígena, interdisciplinaridade e docência na Educação Básica e Superior. Desenvolve trabalhos para Formação continuada de Professores.

Referências

ABREU, Werly Pinheiro de Abreu, (Dogllas). Onde houver Xakriabá, haverá resistência! violações dos direitos indígenas no caso Xakriabá durante a ditadura militar. 2018. 60 f. Trabalho de Conclusão de Curso (Licenciatura)–Faculdade de Educação, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2018. Habilitação em Matemática.

ACSELRAD, Henri. Introdução: O debate sobre cartografia e processos de territorialização - anotações de leitura. In. ACSELRAD, Henri. GUEDES, André Dumas. MAIA, Laís Jabace (orgs). Cartografias sociais, lutas por terra e lutas por território. Universidade Federal do Rio de Janeiro, Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional, Rio de Janeiro: 2015.166 p. (Coleção território, ambiente e conflitos sociais; n. 5)

ALKIMIM, Erick Correa de.; SANTOS, Marilene de Oliveira. Casa de cultura Xacriabá: lugar de conhecimento, cultura, memória e história. Trabalho de conclusão de curso de Formação Intercultural de Educadores Indígenas- habilitação em Ciências da Vida e da Natureza. Faculdade de Educação, UFMG. Belo Horizonte-MG, 2019.

ARAÚJO, Edilene dos Santos. Análise de uma atividade a partir do calendário sociocultural numa escola da aldeia indígena da Prata, povo Xakriabá. 2018. 48 f. Trabalho de Conclusão de Curso (Licenciatura)–Faculdade de Educação, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2018. Habilitação em Matemática.

ARAÚJO, Mariane Dias. “Demarcando território”: tensionamentos nas pesquisas de autoria indígena no contexto da Formação Intercultural para Educadores Indígenas (FIEI). 2019. 152 f. Dissertação (Mestrado em Educação) – Programa de Pós-graduação Conhecimento e Inclusão Social, Faculdade de Educação, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2019

BARROS, Mailson Alves de. A relação da comunidade Xakriabá com o córrego Riacho do Brejo. 2019. 51 f. Trabalho de Conclusão de Curso (Licenciatura em Formação Intercultural Para Educadores Indígena, Habilitação em Ciências da Vida e da Natureza.) – Faculdade de Educação, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2019.

BIZERRA, Ednaldo Gonçalves. Meio ambiente, sustentabilidade e economia do povo xacriabá e da Aldeia barreiro Preto. Trabalho de conclusão de curso de Formação Intercultural de Educadores Indígenas-habilitação em Matemática. Faculdade de Educação, UFMG. Belo Horizonte-MG, 2018.

BRASIL. Resumo do relatório circunstanciado de reestudo de limites da terra indígena Xacriabá. Anexo. Fundação Nacional do Indio (FUNAI). Diário Oficial da União, Brasília, DF, n. 192, p. 30-36, 06 de outubro de 2014.

_______. Referencial curricular nacional para as escolas indígenas. Ministério da Educação e do Desporto, Secretaria de Educação Fundamental. Brasília: MEC/SEF, 1998. 331 p.

BRITO, Ruana Priscila da Silva. Apropriação das práticas de numeramento em um contexto de formação de educadores indígenas. 268f. Dissertação (Mestrado em Educação), Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais. Belo Horizonte, 2012.

CORREA XAKRIABÁ, Célia Nunes. O Barro, o Genipapo e o Giz no fazer epistemológico de Autoria Xakriabá: reativação da memória por uma educação territorializada. Dissertação (Mestrado Profissional em Sustentabilidade junto a Povos e Terras Tradicionais). Centro de Desenvolvimento Sustentável, Universidade de Brasília. Brasília – DF, 2018. 218 p.

D’AMBROSIO, Ubiratan. Etnomatemática – Elo entre as tradições e a modernidade, Belo Horizonte: Ed. Autêntica, 2011.

FERREIRA, Eduardo Sebastiani. Os índios Waimiri-Atroari e a Etnomatemática. In: Knijnik, Gelsa, Wanderer, Fernanda; Oliveira, Claudia. Etnomatemática, currículo e formação. Santa Cruz do Sul: EDUNISC, 2004, p.70-88.

FERREIRA, Mariana Kawall (Org.) Idéias Matemáticas de Povos Culturalmente Distintos. São Paulo: global, 2000 (Série Antropologia e Educação)

FREIRE, Paulo. Pedagogia da tolerância. São Paulo: UNESP, 2004.

HAESBAERT, Rogério. Território, poesia e identidade. Espaço e cultura, nº 3, Janeiro de 1997. p. 20-32.

_______. O mito da desterritorialização: Do “fim dos territórios” à multiterritorialidade. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2004.

INSTITUTO NACIONAL DE PESQUISAS EDUCACIONAIS ANÍSIO TEIXEIRA. (2017) Sinopse Estatística da Educação Superior 2016. Brasília, INEP. Disponível em: http:// portal.inep.gov.br/web/guest/sinopses-estatisticas-da-educacao-superior. Acesso em: 06 fev. 2018.

LEFEBVRE, Henry. The Production of Space. Blackwell, Oxford, 1991 apud TUHIWAI SMITH, Linda. Decolonizing methodologies. Research and indigenous peoples. Second Edition. London & New York: Zed Books, 2012.

LITTLE, Paul E. Territórios Sociais e Povos Tradicionais no Brasil: Por uma antropologia da territorialidade. 2002.

LORENZONI, Claudia A. C. de Araujo. Cestaria Guarani do Espírito Santo numa perspectiva Etnomatemática. 2010. Tese (Doutorado) - Universidade Federal do Espírito Santo, Centro de Educação, Vitória, 2010.

LUCIANO, Gersem José dos Santos. Os saberes indígenas e a escola. É possível e desejável uma escola indígena diferenciada e intercultural? In: XV ENDIPE – Convergências e tensões no campo da formação e do trabalho docente: políticas e práticas educacionais. Apresentação oral. Belo Horizonte, 20 a 23 Abril, 2010, p.1-12.

MARCILINO, Ozirlei Teresa. Educação escolar Tupinikim e Guarani: experiências de interculturalidade em aldeias de Aracruz, no Estado do Espírito Santo. Tese (Doutorado em Educação). Programa de Pós Graduação em Educação, Centro de Educação, Universidade Federal do Espírito Santo, Vitória/ES, 2014.

MENDES, Jackeline Rodrigues; TAMAYO-OSORIO, Carolina. Saberes e práticas matemáticas na educação (escolar) indígena. Dossiê Temático. Zetetiké. Campinas, SP, v.26, n.1, jan./abr.2018, p.1-7.

MENDONÇA, Augusta Aparecida Neves. Reflexões sobre as práticas educativas dos professores indígenas Xacriabá: contribuições da Etnomatemática e da Educação Matemática Crítica. In: ARAÚJO, Jussara Loiola. Educação matemática crítica: reflexões e diálogos. Belo Horizonte, MG: Argvmentvm, 2007, pp. 97-109.

MENEGHETTI, Renata C. Geromel. Constituição do saber matemático: reflexões filosóficas e históricas. Londrina: EDUEL, 2010.

MUSBERG, João Alberto Steffen, FERREIRA DA SILVA, Gilberto. Interculturalidade na perspectiva da descolonialidade: possibilidades via educação. Revista Ibero-Americana de Estudos em Educação, Araraquara, v. 13, n. 1, p. 140-154, jan./mar. 2018.

OLIVEIRA, Neuza Rodrigues da Silva. Roupas de palha tradicionais Xakriabá. 2018. 51 f. Trabalho de Conclusão de Curso (Licenciatura)–Faculdade de Educação, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2018. Habilitação em Matemática.

QUIJANO, Aníbal. Colonialidade do poder, eurocentrismo e América Latina. In: LANDER, E. (ed.). A colonialidade do saber: eurocentrismo e ciências sociais. CLACSO, pp. 227-278, Buenos Aires, 2005.

SACK, R. Human territoriality: Its theory and history. Cambridge: Cambridge University Press, 1986.

SANTOS, Milton. A Natureza do Espaço: Técnica e Tempo, Razão e Emoção. 4. ed. 2. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2006. (Coleção Milton Santos; 1)

SILVA, Manoel Antônio de Oliveira. “A única herança que um índio deixa para outro índio é a luta”: a história da língua Akwen do Povo Xakriabá. 2018. 47 f. Trabalho de Conclusão de Curso (Licenciatura)–Faculdade de Educação, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2018. Habilitação em Matemática.

SOUSA, Abedias Pereira de Sousa. Mudanças na vida e na cultura Xakriabá: das alterações econômicas e climáticas. Trabalho de conclusão de curso de Formação Intercultural de Educadores Indígenas-habilitação em Matemática. Faculdade de Educação, UFMG. Belo Horizonte-MG, 2019.

STAVENHAGEN, Rodolfo. “Indigenous Peoples: Land, Territory, Autonomy, and Self-Determination”. In: ROSSET, P.; PATEL, R.; COURVILLE,M. (ed.). Promised Land: Competing Visions of Agrarian Reform. Oakland, CA: Food First Books, 2006. p. 208-211. In: ACSELRAD, Henri. GUEDES, André Dumas. MAIA, Laís Jabace (orgs). Cartografias sociais, lutas por terra e lutas por território. Universidade Federal do Rio de Janeiro, Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional, Rio de Janeiro: 2015.166 p. (Coleção território, ambiente e conflitos sociais; n. 5)

STUMPF, Beatriz Osorio. Reflexões sobre interdisciplinaridade, interculturalidade e interinstitucionalidade em processo formativo de professores indígenas. Tellus, ano 19, n. 38, jan./abr. 2019, p. 319-340,

STREET, Brian. What’s ‘new’ in New Literacy Studies? Critical Approaches to Literacy in Theory and Practice. Current Issues in Comparative Education, Vol. 5(2): 77-91. Columbia: Teachers College, Columbia University, 2003

TOMAZ, Vanessa Sena. KNIJNIK, Gelsa. Tensionamentos Na Formação Intercultural De Professores Indígenas: Um Estudo Da Escola Xakriabá. EDUR. Educação em Revista. Belo Horizonte. v.34, 2018.

TOMAZ, Vanessa Sena; CAMPOS, Ilaine da Silva. Práticas sociais (matemáticas) de produção de um planejamento financeiro na formação de educadores indígenas. Revista Eletrônica de Educação. REVEDUC, v. 12, 2018, p. 556-576.

UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS. Projeto Político Pedagógico do Curso de Formação Intercultural para Educadores Indígenas. FIEI. Belo Horizonte, 2009.

WALSH Catherine. Interculturalidad crítica y educación intercultural. In: Construyendo Interculturalidad Crítica. Jorge Viaña Luis Tapia; Catherine Walsh. 2010.

WALSH Catherine. Interculturalidad y (de)colonialidad: Perspectivas críticas y políticas. Visão Global, Joaçaba, v. 15, n. 1-2, p. 61-74, jan./dez. 2012.

Publicado
2020-11-12